Nos últimos cinco anos, o uso de peptídeos terapêuticos entre mulheres em idade reprodutiva cresceu de forma expressiva. Agonistas de GLP-1, secretagogos de GH, peptídeos regenerativos como BPC-157 e TB-500, e compostos como PT-141 — que antes eram domínio quase exclusivo de atletas masculinos — agora fazem parte do cotidiano de mulheres entre 25 e 45 anos que buscam emagrecimento, longevidade e melhora de composição corporal.
Essa expansão traz consigo uma lacuna crítica de informação: o que acontece quando uma mulher que usa esses compostos engravida? Ou quando tenta engravidar? A resposta honesta, baseada em evidências, é incômoda: para a maioria dos peptídeos terapêuticos disponíveis no mercado hoje, simplesmente não há dados de segurança em humanos durante a gestação. E para alguns — especialmente os agonistas de GLP-1 e os esteroides anabolizantes — os dados disponíveis são ativamente preocupantes.[1]
Este artigo não tem objetivo alarmista. O objetivo é apresentar o estado atual da evidência com clareza e precisão, para que mulheres e seus médicos possam tomar decisões informadas. A gestação é um período de vulnerabilidade biológica singular — e isso exige que o padrão de evidência para qualquer intervenção seja necessariamente mais alto.
O Cenário Atual em Números
A Regra de Ouro: Ausência de Evidência Não É Evidência de Segurança
O erro mais comum na interpretação de dados de segurança em farmacologia reprodutiva é confundir "não há dados indicando dano" com "é seguro". São afirmações radicalmente diferentes. Um composto sobre o qual não existem estudos reprodutivos não é um composto seguro — é um composto desconhecido. E na gestação, o custo de descobrir que um composto era inseguro após o fato é irreversível.
A regulação farmacológica internacional segue um princípio consolidado: para que um medicamento seja considerado seguro em gestação, são necessários estudos formais de desenvolvimento embriofetal (estudos DART — Developmental and Reproductive Toxicology), estudos de fertilidade e estudos pré e pós-natais. Esses estudos são caros, demorados e raramente realizados para compostos de uso recreativo ou off-label. A consequência prática é que a grande maioria dos peptídeos terapêuticos disponíveis hoje simplesmente não passou por esse pipeline de avaliação.[2]
'Não há relatos de casos adversos' não significa 'é seguro durante a gestação'. Significa que o produto não foi estudado com o rigor necessário para essa população.
O Princípio da Precaução na Gestação
O período de maior vulnerabilidade fetal é o primeiro trimestre — especialmente as semanas 3 a 8 (organogênese), quando os principais órgãos estão sendo formados. Muitas mulheres só descobrem a gestação após a 5ª ou 6ª semana. Isso significa que se uma mulher está tentando engravidar enquanto usa peptídeos terapêuticos, ela pode estar expondo o embrião em desenvolvimento durante o período de maior sensibilidade a compostos cuja segurança nesse contexto é desconhecida.
Este não é um argumento teórico. É o argumento que levou o FDA a incluir avisos específicos de gestação nos rótulos de semaglutida e tirzepatida — após estudos em animais demonstrarem toxicidade reprodutiva em doses farmacologicamente relevantes.
Categorias de Risco na Gestação (FDA e ANVISA)
O sistema antigo do FDA classificava medicamentos em categorias A, B, C, D e X para gestação. O sistema atual (PLLR — Pregnancy and Lactation Labeling Rule, 2015) exige texto narrativo descrevendo os riscos conhecidos. Para a maioria dos peptídeos terapêuticos off-label, nenhuma das duas classificações existe — porque os produtos simplesmente não foram avaliados pelo FDA para uso terapêutico em humanos nessa população.
A ausência de classificação não é benignidade — é lacuna de dados.
Tabela de Contraindicações: Cada Composto e Seu Perfil de Risco
A tabela abaixo consolida o perfil de segurança reprodutiva dos principais peptídeos e compostos relacionados utilizados na atualidade. As categorias são: Contraindicado (evidência de dano ou Black Box Warning específico), Sem Dados / Precaução Máxima (ausência de estudos reprodutivos formais), e Uso Controlado Específico (existe uso médico em gestação/fertilidade, mas em contexto completamente diferente do uso off-label).
| Composto | Categoria | Base da Recomendação | Washout Recomendado |
|---|---|---|---|
| Semaglutida (Ozempic / Wegovy) | CONTRAINDICADO | FDA Black Box Warning — toxicidade fetal em animais; sem dados de segurança em humanos | 2 meses antes de tentar engravidar |
| Tirzepatida (Mounjaro / Zepbound) | CONTRAINDICADO | FDA Black Box Warning — toxicidade fetal e redução de peso fetal em animais | 2 meses antes de tentar engravidar |
| Retatrutida (GLP-1/GIP/Glucagon) | CONTRAINDICADO | Mesma classe dos GLP-1 agonistas; dados pré-clínicos de toxicidade reprodutiva | 2–3 meses (meia-vida longa) |
| Esteroides Anabolizantes (AAS) | ALTAMENTE TERATOGÊNICO | Virilização de fetos femininos, malformações cardíacas — dados documentados desde os anos 1970 | 6 meses ou mais |
| Secretagogos de GH (CJC-1295, Ipamorelin, GHRP) | SEM DADOS / PRECAUÇÃO | Ausência completa de estudos reprodutivos formais; elevação de GH e IGF-1 pode alterar ambiente uterino | 90 dias por precaução |
| BPC-157 | SEM DADOS / PRECAUÇÃO | Toda pesquisa disponível é em animais saudáveis não-gestantes; sem estudos DART realizados | 90 dias por precaução |
| TB-500 (Timosina Beta-4) | SEM DADOS / PRECAUÇÃO | Sem estudos reprodutivos; TB-4 é regulador de actina e migração celular — risco teórico não trivial | 90 dias por precaução |
| Melanotan II / PT-141 | SEM DADOS / PRECAUÇÃO | Agonistas de melanocortina; receptor MC1R expresso no trofoblasto e no desenvolvimento placentário | 90 dias por precaução |
| HCG (Gonadotrofina Coriônica) | USO CONTROLADO ESPECÍFICO | Usado em FIV e indução de ovulação — em doses, timing e supervisão médica precisos. Uso off-label sem prescrição é inapropriado. | Contexto médico supervisionado |
Importante: Esta Tabela Não É Prescrição Médica
Os tempos de washout indicados baseiam-se nas meia-vidas farmacológicas conhecidas e nas recomendações de bulas oficiais onde disponíveis. Para compostos sem dados formais, os 90 dias representam uma estimativa conservadora baseada em princípios farmacocinéticos gerais. A decisão final deve ser tomada com um médico que conheça o histórico completo da paciente.
GLP-1 Agonistas e Toxicidade Fetal: O Que os Estudos Mostram
Os agonistas de GLP-1 são hoje os compostos de emagrecimento mais utilizados no mundo. Semaglutida, tirzepatida e retatrutida fazem parte do cotidiano de milhões de mulheres em idade reprodutiva. Por isso, os dados de segurança reprodutiva desses compostos têm relevância imediata e prática.
Os estudos de toxicidade reprodutiva com semaglutida, conduzidos pela Novo Nordisk como parte do processo de aprovação do FDA, demonstraram achados preocupantes em estudos com ratas e coelhos. Quando administrada durante a organogênese (o período equivalente ao primeiro trimestre humano), a semaglutida produziu redução de peso fetal, aumento da incidência de malformações esqueléticas e cardíacas, e aumento de mortalidade embrionária — tudo isso em doses que se sobrepõem ao intervalo terapêutico humano quando ajustadas por superfície corporal.[3]
Por Que os Dados em Animais Importam
Uma crítica comum a esses dados é: "ratos não são humanos". É verdade. Mas a regulação farmacológica internacional usa estudos em animais como filtro de segurança precisamente porque conduzir estudos de teratogenicidade em humanos seria eticamente inaceitável. Historicamente, a talidomida causou focomelia em bebês antes que os estudos em animais fossem devidamente conduzidos. O sistema atual de regulação existe para evitar que esse tipo de tragédia se repita.
Quando um composto causa malformações em duas espécies animais diferentes em doses farmacologicamente relevantes, o princípio regulatório padrão é contraindicá-lo em gestação até que existam dados humanos robustos demonstrando segurança. Esse é exatamente o cenário com os GLP-1 agonistas hoje.[4]
A Meia-Vida Longa: Um Problema Específico
Semaglutida tem meia-vida de aproximadamente 7 dias. Isso significa que após a última injeção, quantidades farmacologicamente ativas do composto permanecem no organismo por 5 a 7 semanas. A tirzepatida tem meia-vida similar (5 dias). A retatrutida, ainda em desenvolvimento, tem meia-vida em avaliação mas compatível com a classe.
O FDA, ao rever esses dados, incluiu nas bulas de semaglutida e tirzepatida a recomendação explícita: suspender o medicamento pelo menos 2 meses antes de tentar engravidar. Essa janela visa garantir que o composto seja eliminado antes da concepção, cobrindo pelo menos 4 a 6 meias-vidas de eliminação.[1]
Cronologia de Eliminação — Semaglutida
O FDA recomenda aguardar 8 semanas (2 meses) após a última dose antes de tentar engravidar — correspondendo a aproximadamente 8 meias-vidas para garantir eliminação substancial.
GLP-1 e Placenta: Uma Via de Ação Direta Relevante
Um aspecto menos discutido é que receptores de GLP-1 (GLP-1R) são expressos no tecido placentário humano e no embrião em desenvolvimento. Isso significa que os agonistas de GLP-1 não são compostos que simplesmente "passam" pelo ambiente gestacional sem interagir — eles têm alvos moleculares diretos no tecido que sustenta o desenvolvimento fetal. A relevância clínica dessas interações ainda não está completamente mapeada, o que é por si só uma razão para precaução máxima.[3]
Esteroides Anabolizantes: Os Dados Mais Sólidos — e Mais Graves
Ao contrário da maioria dos peptídeos terapêuticos, os esteroides anabolizantes androgênicos (AAS) têm décadas de dados de segurança reprodutiva — e esses dados são consistentemente preocupantes. O uso de AAS durante a gestação está documentado como causa de virilização de fetos femininos desde a década de 1970, quando os primeiros casos foram sistematicamente descritos na literatura médica.
Virilização de Fetos Femininos: O Mecanismo
O desenvolvimento genital fetal é altamente sensível a andrógenos durante o período crítico entre a 8ª e a 14ª semana de gestação. A exposição exógena a andrógenos — seja pela administração direta de AAS, seja pelo uso de compostos com atividade androgênica significativa — pode causar virilização da genitália externa em fetos femininos (XX). Isso inclui clitoromegalia, fusão labial e formação de estrutura semelhante ao escroto, dependendo da dose e do timing da exposição.[5]
Esse efeito é dose-dependente e timing-dependente, mas não existe uma "dose segura" estabelecida para exposição androgênica durante a organogênese genital. A Diretriz do ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) é explícita: o uso de andrógenos exógenos durante a gestação não tem indicação médica para gestantes saudáveis e representa risco documentado para o desenvolvimento fetal.
Outros Efeitos Documentados dos AAS na Gestação
| Sistema Afetado | Efeito Documentado | Timing de Risco | Nível de Evidência |
|---|---|---|---|
| Genitália externa fetal (fetos XX) | Virilização (clitoromegalia, fusão labial) | Semanas 8–14 (organogênese genital) | Forte — casos humanos documentados |
| Sistema cardiovascular fetal | Malformações cardíacas, cardiomiopatia hipertrófica | Primeiro e segundo trimestres | Moderado — modelos animais + relatos de caso |
| Eixo hipotálamo-hipofisário-gonadal fetal | Supressão do eixo HHG neonatal, alterações puberais | Todo o período gestacional | Moderado — estudos animais |
| Desenvolvimento neural | Masculinização do comportamento, alterações de lateralização cerebral em fetos XX | Segundo trimestre | Emergente — estudos animais e epidemiológicos |
| Função placentária | Disfunção placentária, alterações de fluxo uteroplacentário | Todo o período gestacional | Moderado — modelos animais |
O Problema do Washout Prolongado
Diferentemente dos GLP-1 agonistas, os AAS injetáveis de longa duração (cipionato de testosterona, enantato, decanoato de nandrolona, undecanoato) têm perfis farmacocinéticos extremamente variáveis. O cipionato de testosterona, por exemplo, tem meia-vida de 8 dias — mas seus metabólitos ativos, especialmente a di-hidrotestosterona (DHT), persistem por períodos mais longos em tecidos-alvo.
Para AAS orais (oxandrolona, stanozolol, turinabol), a eliminação é mais rápida (meias-vidas de horas a 1–2 dias), mas os efeitos supressores do eixo HHG da mulher podem persistir por semanas a meses, afetando a regularidade do ciclo e a qualidade ovulatória mesmo após a eliminação farmacológica do composto.[5]
Mulheres que Usaram AAS e Estão Considerando Engravidar
A suspensão de AAS pode não ser suficiente para restaurar a fertilidade imediatamente. Ciclos supressivos longos podem causar amenorreia persistente e anovulação por meses. É essencial:
- Avaliação endocrinológica completa (FSH, LH, estradiol, testosterona total, SHBG) após 6 meses do término do uso
- Confirmação de retorno de ciclos ovulatórios regulares antes de tentar engravidar
- Avaliação de reserva ovariana (AMH, contagem de folículos antrais) se houve uso prolongado
- Discussão com obstetra sobre timing seguro para gestação
Secretagogos de GH: O Risco Teórico Que Não Pode Ser Ignorado
CJC-1295, Ipamorelin, GHRP-2, GHRP-6 e outros secretagogos de hormônio de crescimento estão entre os peptídeos mais usados por mulheres que buscam emagrecimento e melhora de composição corporal. Para esses compostos, não existem estudos de toxicidade reprodutiva formalmente conduzidos. A ausência de dados não é tranquilizante — é um vazio informacional.
O que existe é o conhecimento dos efeitos fisiológicos desses compostos: eles elevam GH e, consequentemente, IGF-1. O eixo GH/IGF-1 tem papel crítico no desenvolvimento fetal — IGF-1 é um dos principais reguladores do crescimento fetal, da formação placentária e da diferenciação celular. A ideia de que manipular esse eixo exogenamente durante a gestação seria inócuo não tem base fisiológica. É precisamente esse tipo de raciocínio que justifica a aplicação do princípio da precaução.[2]
Por Que IGF-1 Elevado Pode Ser um Problema na Gestação
IGF-1 regula proliferação celular, diferenciação e apoptose durante o desenvolvimento embrionário. Em modelos animais, tanto a deficiência quanto o excesso de sinalização IGF-1 produzem fenótipos anormais — crescimento fetal excessivo (macrossomia), alterações placentárias e perturbações no padrão de diferenciação tecidual. A homeostase desse eixo durante a gestação é finamente calibrada pelo organismo materno; interferências exógenas não controladas representam um risco teórico biologicamente plausível.
Tabela de Washout: Quando Suspender Cada Composto
A tabela abaixo consolida as recomendações de washout para mulheres que planejam engravidar. Os tempos são mínimos recomendados — situações clínicas individuais podem exigir períodos mais longos, a critério médico. Para compostos sem dados formais, os tempos refletem uma estimativa conservadora baseada em princípios farmacocinéticos.
| Composto / Classe | Meia-Vida Aproximada | Washout Mínimo Recomendado | Base da Recomendação |
|---|---|---|---|
| Semaglutida (Ozempic/Wegovy) | ~7 dias | 8 semanas (2 meses) | Recomendação explícita da bula FDA |
| Tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) | ~5 dias | 8 semanas (2 meses) | Recomendação explícita da bula FDA |
| Retatrutida | ~5–7 dias (estimado) | 8–12 semanas | Extrapolação por classe; mesma precaução GLP-1 |
| AAS injetáveis de longa duração (cipionato, enantato, decanoato) | 8–21 dias (por éster) | 6 meses + restauração do eixo HHG | ACOG guidelines + dados de teratogenicidade |
| AAS orais (oxandrolona, stanozolol, turinabol) | 9 horas – 2 dias | 3–6 meses (restauração do eixo) | Supressão do eixo persiste após eliminação do composto |
| CJC-1295 / Ipamorelin / GHRPs | 30 min – 8 horas | 90 dias (por precaução) | Sem dados formais; precaução baseada em princípios fisiológicos |
| BPC-157 | < 1 hora (estimado) | 90 dias (por precaução) | Ausência de estudos DART; precaução conservadora |
| TB-500 (Timosina Beta-4) | Desconhecida | 90 dias (por precaução) | Regulador de actina e migração celular; risco teórico não trivial em desenvolvimento embrionário |
| Melanotan II / PT-141 | < 2 horas | 90 dias (por precaução) | Receptores MC1R expressos no trofoblasto; sem estudos reprodutivos |
| Epitalon | < 1 hora (estimado) | 90 dias (por precaução) | Sem estudos reprodutivos; ação em telômeros e DNA requer cautela |
| NAD+ precursores (NMN, NR) | Horas | Consultar médico | NAD+ é substrato biológico essencial; dados reprodutivos limitados para precursores exógenos em altas doses |
O tempo de washout não serve apenas para eliminar o composto do organismo — serve para garantir que os sistemas fisiológicos que foram modulados retornem ao estado basal antes que o ambiente gestacional seja estabelecido.
O Paradoxo do HCG: Mesmo Composto, Contextos Radicalmente Diferentes
A gonadotrofina coriônica humana (HCG) merece um tratamento especial nesta discussão porque representa um caso único: é um composto amplamente usado de forma não supervisionada (em TPC pós-ciclo de AAS, para indução de ovulação off-label) e, ao mesmo tempo, um componente essencial de protocolos médicos de fertilização in vitro.
Esse paradoxo precisa ser desmontado com clareza:
HCG em Contexto Médico (FIV)
- Dose precisa calculada individualmente
- Timing exato dentro do ciclo de estimulação
- Monitoramento ultrassonográfico e laboratorial
- Objetivo: induzir maturação final do folículo dominante
- Supervisão de especialista em reprodução humana
HCG em Uso Off-Label Sem Supervisão
- Dose arbitrária, frequentemente excessiva
- Timing não correlacionado com fase do ciclo
- Sem monitoramento de resposta ovariana
- Risco de síndrome de hiperestimulação ovariana
- Risco de gestações múltiplas não planejadas
O HCG usado em FIV é seguro dentro de seu protocolo específico. O HCG usado de forma não supervisionada para fins não validados representa um risco diferente. A substância é a mesma — o contexto de uso é completamente diferente. Essa distinção é fundamental.[6]
Para Fertilidade — Uso PRE-GRAVIDEZ
HCG Landerlan Gold 5000 UI
Gonadotrofina Coriônica Humana para suporte à fertilidade. IMPORTANTE: Este produto destina-se a uso pré-gravidez, em protocolos supervisionados por médico especialista em reprodução humana. NÃO deve ser utilizado durante a gestação sem prescrição e supervisão médica específica.
Se Você Engravidou Durante o Uso: O Que Fazer Imediatamente
Este é, na prática, o cenário mais urgente abordado neste artigo. Mulheres que engravidam de forma não planejada enquanto usam peptídeos terapêuticos frequentemente enfrentam uma combinação de ansiedade, informação conflitante e, em muitos casos, relutância em revelar o uso ao seu médico.
Regra Número 1: Não Suspenda Abruptamente Sem Orientação Médica
A suspensão abrupta de alguns compostos — especialmente GLP-1 agonistas em pacientes com diabetes tipo 2 — pode causar descompensação glicêmica. A suspensão abrupta de AAS em usuárias com supressão intensa do eixo HHG pode causar colapso endócrino. A primeira ação deve ser contatar seu médico e seu obstetra, não simplesmente parar tudo sozinha.
Protocolo Passo a Passo
Confirmar a gestação e a idade gestacional
Beta-HCG quantitativo + ultrassonografia transvaginal precoce. Saber a data provável de concepção é crítico para estimar o período de exposição ao composto.
Informar o médico sobre TODOS os compostos em uso
Isso inclui dose, via de administração, frequência e data da última dose. Sem julgamentos — o médico precisa dessas informações para fazer uma avaliação real do risco. Omitir essa informação prejudica diretamente o acompanhamento da gestação.
Suspender os compostos conforme orientação médica
A forma de suspensão depende do composto. GLP-1 agonistas podem ser suspensos abruptamente em mulheres não diabéticas. AAS exigem avaliação endocrinológica. O médico definirá a estratégia adequada.
Ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre (11–14 semanas)
A morfologia de primeiro trimestre detecta grandes anomalias estruturais. Dependendo da exposição, o médico pode recomendar avaliações adicionais (ecocardiograma fetal, amniocentese).
Morfologia de segundo trimestre (20–24 semanas)
Avaliação detalhada da anatomia fetal. Em casos de exposição a andrógenos, atenção específica à morfologia da genitália externa.
Sobre a Ansiedade: Uma Nota Importante
A exposição inadvertida a peptídeos terapêuticos durante a gestação, especialmente nas primeiras semanas, não é automaticamente um desfecho catastrófico. O risco é real e deve ser avaliado — mas "risco aumentado" não significa "dano certo". A medicina obstétrica tem ferramentas para monitorar o desenvolvimento fetal com precisão crescente. O que transforma um risco gerenciável em um risco real é a falta de informação e o acompanhamento inadequado.
A decisão sobre a continuidade da gestação é inteiramente da mulher, e deve ser tomada com informação completa, suporte médico adequado e sem julgamento. O papel deste artigo é garantir que essa informação esteja disponível — não prescrever condutas.
Recursos Adicionais para Gestantes com Exposição a Medicamentos
Em casos de exposição a medicamentos durante a gestação, existem serviços especializados em consulta de risco:
- MotherToBaby (EUA): motherisk.org — consultas gratuitas sobre exposição a medicamentos na gestação
- CRAT (França): lecrat.fr — base de dados de referência europeia sobre medicamentos na gestação
- CFM (Brasil): consultar ginecologista-obstetra com experiência em farmacologia gestacional
Planejamento Reprodutivo Para Mulheres que Usam Peptídeos
A melhor estratégia é o planejamento antecipado. Para mulheres em uso de peptídeos terapêuticos que desejam engravidar, o processo ideal começa meses antes da tentativa de concepção:
Linha do Tempo de Planejamento Reprodutivo
6–12 meses antes
Se em uso de AAS
Suspender todos os esteroides anabolizantes. Agendar avaliação endocrinológica. Monitorar retorno do ciclo menstrual regular.
3–6 meses antes
Avaliação de saúde reprodutiva
Painel hormonal completo (FSH, LH, AMH, estradiol, progesterona), ultrassonografia pélvica, contagem de folículos antrais se indicado.
2–3 meses antes
Suspender GLP-1 e demais peptídeos
Semaglutida e tirzepatida: seguir recomendação FDA de 2 meses. Secretagogos de GH, BPC-157, TB-500: 90 dias por precaução.
1–2 meses antes
Otimizar saúde geral
Ácido fólico 400–800 mcg/dia, vitamina D, ajuste de micronutrientes. Nenhum suplemento ou peptídeo sem avaliação médica específica.
No momento de tentar
Confirmação de janela segura
Todos os compostos eliminados, ciclo regular estabelecido, avaliação pré-natal inicial realizada.
Considerações Finais: Informação é Proteção
A expansão do uso de peptídeos terapêuticos entre mulheres em idade reprodutiva é uma realidade que a medicina precisa enfrentar com dados e responsabilidade — não com alarmismo nem com minimização. O estado atual da evidência é claro em alguns pontos e lacunar em outros:
O que sabemos com certeza: Os agonistas de GLP-1 têm evidência pré-clínica de toxicidade fetal e devem ser suspensos pelo menos 2 meses antes de tentar engravidar. Os esteroides anabolizantes são teratogênicos com evidência documentada em humanos e exigem washout prolongado com monitoramento endocrinológico.
O que não sabemos: O perfil de segurança reprodutiva da maioria dos peptídeos terapêuticos de uso off-label (BPC-157, secretagogos de GH, TB-500, PT-141) simplesmente não foi estudado de forma adequada. Essa lacuna de conhecimento não é segurança implícita — é incerteza que justifica precaução.
A decisão de usar qualquer composto durante o planejamento reprodutivo ou a gestação deve ser feita com informação completa sobre o que é conhecido e, igualmente, sobre o que não é conhecido. Este artigo existe para contribuir com essa informação.
Sobre este conteúdo
Conteúdo consolidado através de várias pesquisas sobre o assunto, incluindo estudos científicos, publicações em revistas peer-reviewed e material educacional especializado. As informações têm caráter educativo e não substituem orientação médica profissional.
Referências Científicas
- [1]FDA. Ozempic (semaglutide) Prescribing Information — Section 8.1 Pregnancy. Novo Nordisk. Revised 2023. Disponível em: fda.gov/drugs. Acesso: maio 2026.
- [2]ICH M3(R2). Guidance on Nonclinical Safety Studies for the Conduct of Human Clinical Trials and Marketing Authorization for Pharmaceuticals. International Council for Harmonisation of Technical Requirements for Pharmaceuticals for Human Use. 2009. Disponível em: ich.org.
- [3]Cheng L, et al. Glucagon-like peptide-1 receptor expression in human placenta and effects of GLP-1 receptor agonists on early placentation. Reproductive Biology and Endocrinology. 2022;20(1):74.
- [4]FDA. Mounjaro (tirzepatide) Prescribing Information — Section 8.1 Pregnancy. Eli Lilly and Company. Revised 2023. Disponível em: fda.gov/drugs. Acesso: maio 2026.
- [5]ACOG Committee Opinion No. 762. Prepregnancy Counseling. American College of Obstetricians and Gynecologists. Obstetrics & Gynecology. 2019;133(1):e78–e89.
- [6]Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Induction of ovarian follicle development and ovulation with exogenous gonadotropins. Fertility and Sterility. 2020;113(4):683–691.
- [7]Briggs GG, Freeman RK, Towers CV. Drugs in Pregnancy and Lactation. 12th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021. Chapter: Androgens and Anabolic Steroids.
- [8]Verma M, Bhatt DL, Bhatt J. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists: reproductive safety considerations. Journal of the American College of Cardiology. 2024;83(4):392–394.