Em 2023, aproximadamente 9 milhões de prescrições de semaglutida foram emitidas nos Estados Unidos. No Brasil, o crescimento foi igualmente expressivo — Ozempic, Wegovy e Mounjaro tornaram-se palavras correntes em consultórios de endocrinologia, clínicas de emagrecimento e, cada vez mais, no mercado de compostos magistrais. A grande maioria dessas prescrições vai para adultos com sobrepeso, obesidade ou diabetes tipo 2. Uma parcela significativa dessas pessoas é composta por mulheres em idade reprodutiva.
Essa convergência cria um problema de saúde pública silencioso: o que acontece quando uma mulher engravida enquanto usa semaglutida, tirzepatida ou retatrutida? O que a ciência sabe — e o que ainda não sabe — sobre esses compostos durante a gestação? As bulas dizem "não usar na gravidez", mas as bulas não explicam o mecanismo, não quantificam o risco e não orientam o médico sobre o que fazer quando a situação já aconteceu.
Este artigo consolida os dados disponíveis até 2024 sobre GLP-1 agonistas, tirzepatida e retatrutida na gravidez. Não é um texto para substituir orientação médica — é para informar a conversa com o médico. Leia com atenção às seções de ação prática.
O Problema em Números
A Explosão do Uso de GLP-1 em Mulheres em Idade Reprodutiva
A aprovação do Ozempic (semaglutida 0,5–1mg) para diabetes tipo 2 em 2017 marcou o início de uma nova era. Em 2021, o Wegovy (semaglutida 2,4mg) foi aprovado especificamente para obesidade — a primeira droga com esse grau de eficácia em redução de peso em décadas. Em 2022, chegou o Mounjaro (tirzepatida), um agonista duplo GLP-1/GIP com resultados ainda superiores. No horizonte, a retatrutida — triple agonist GLP-1/GIP/Glucagon — promete superar todos eles.
Obesidade afeta desproporcionalmente mulheres em países de renda média, incluindo o Brasil. Segundo o IBGE, mais de 30% das mulheres brasileiras entre 20 e 49 anos têm obesidade ou sobrepeso grave. Diabetes tipo 2 também tem alta prevalência nessa faixa etária, especialmente em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) — condição que em si mesma aumenta risco de infertilidade e que, ironicamente, pode ser tratada com melhora do controle glicêmico via GLP-1.
O resultado prático: centenas de milhares de mulheres brasileiras usam ou considerarão usar esses medicamentos em algum momento entre os 20 e 45 anos de idade. Algumas planejam gravidez e precisarão descontinuar. Outras engravidarão de forma não planejada — e essa é a situação de maior risco, porque a exposição ocorre nas primeiras semanas de gestação, período crítico de organogênese, antes mesmo de a mulher saber que está grávida.
Por que isso é urgente agora
- A semaglutida tem meia-vida de ~1 semana, mas permanece detectável por até 5 semanas após a última dose. Isso significa que uma mulher que para o medicamento ao descobrir a gravidez (semana 4–6) ainda pode ter exposição fetal ativa nas primeiras semanas críticas.
- Muitas prescrições off-label ocorrem via telemedicina sem avaliação de risco reprodutivo completa.
- Compostos magistrais (semaglutida, retatrutida) são prescritos com ainda menos rastreamento de segurança do que os produtos registrados.
- Os dados de segurança gestacional ainda são escassos — os grandes ensaios clínicos excluíram gestantes.
Como os GLP-1 Agonistas Agem: Muito Além do Controle Glicêmico
Para entender por que esses medicamentos representam um risco potencial na gravidez, é necessário compreender que o receptor GLP-1 não existe apenas no pâncreas. A narrativa simplificada — "o GLP-1 estimula insulina e reduz glucagon" — cobre apenas uma fração da biologia desse sistema.
Distribuição do receptor GLP-1 no organismo
O receptor GLP-1 (GLP-1R) é expresso amplamente:[1]
| Tecido | Expressão de GLP-1R | Função conhecida |
|---|---|---|
| Células beta pancreáticas | Alta | Secreção de insulina dependente de glicose |
| Hipotálamo e tronco cerebral | Alta | Saciedade, controle de ingestão alimentar |
| Coração e vasos | Moderada | Proteção cardiovascular, cronotropismo |
| Rim | Moderada | Natriurese, proteção renal |
| Placenta | Presente | Transporte de nutrientes, angiogênese placentária |
| Tecido fetal | Presente desde o 1º trimestre | Crescimento e diferenciação celular fetal |
| Glândula mamária | Presente | Desenvolvimento glandular e lactação |
A presença do receptor GLP-1 na placenta e no tecido fetal não é um achado teórico — foi documentada em estudos de expressão gênica e imunohistoquímica. A placenta humana expressa GLP-1R principalmente nas células do sinciciotrofoblasto, as mesmas responsáveis pela troca de nutrientes entre mãe e feto.[1]
O que isso significa clinicamente? Que quando uma gestante recebe semaglutida — ou qualquer agonista GLP-1 — a molécula não fica contida ao corpo materno. Ela pode afetar diretamente a função placentária e o desenvolvimento fetal via ativação do GLP-1R placentário/fetal. A magnitude desse efeito em humanos ainda é objeto de investigação, mas o mecanismo biológico para dano existe.
Tirzepatida: agonismo duplo GLP-1/GIP
A tirzepatida ativa adicionalmente o receptor GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide). O receptor GIPR também é expresso na placenta e no sistema nervoso central fetal em desenvolvimento.[2] A co-ativação GLP-1R + GIPR placentária pode ter efeitos sinérgicos ainda menos previsíveis do que o agonismo isolado do GLP-1R.
Retatrutida: triple agonism com implicações amplificadas
A retatrutida acrescenta o receptor de glucagon (GlucagonR) ao perfil de ação. O GlucagonR é expresso no fígado fetal, no coração fetal e no sistema nervoso central fetal. O glucagon fetal desempenha papel no metabolismo da glicose neonatal — especialmente na mobilização de glicogênio hepático no período pós-parto imediato. A modulação desse sistema durante o desenvolvimento in utero é completamente inexplorada clinicamente.
O GLP-1 agonista não é apenas uma droga metabólica. É uma molécula que interage com receptores presentes no feto, na placenta e na glândula mamária — sistemas que evoluíram para responder a sinais hormonais específicos durante a gestação.
O Que os Estudos em Animais Mostraram
Os estudos de toxicologia reprodutiva são exigidos pela FDA e EMA antes de qualquer aprovação. Para os GLP-1 agonistas, esses estudos foram conduzidos em ratos e coelhos — e os achados foram preocupantes o suficiente para justificar a contraindicação durante a gravidez nas bulas de todos os produtos desta classe.
Semaglutida — estudos de teratogenicidade
Os estudos de teratogenicidade com semaglutida em ratas grávidas, conduzidos pela Novo Nordisk e submetidos ao FDA como parte do dossiê de registro, revelaram:[3]
- Redução do peso fetal em filhotes de ratas expostas a semaglutida durante a gestação, mesmo em doses inferiores à dose clínica máxima em termos de exposição sistêmica (AUC).
- Malformações esqueléticas — fusões e alterações em costelas e vértebras — observadas em filhotes de ratas expostas a doses supraterapêuticas.
- Aumento de perdas embrionárias precoces em grupo de dose mais alta.
- Redução do crescimento pós-natal em filhotes nascidos de mães expostas durante a gestação e lactação.
Importante: esses efeitos foram observados em doses supraterapêuticas (acima da exposição clínica máxima em humanos quando corrigida por peso corporal). Isso significa que o risco em humanos usando doses clínicas padrão pode ser menor — mas não que o risco seja zero. A extrapolação de toxicologia animal para humanos é imperfeita, mas é a única evidência disponível antes de dados clínicos robustos.
Tirzepatida — estudos em coelhos
A bula do Mounjaro (tirzepatida, Eli Lilly) detalha os estudos em animais com achados mais graves:[2]
| Espécie | Achado | Dose relativa à clínica |
|---|---|---|
| Ratos | Redução de peso fetal, atraso na ossificação | Supraterapêutica (>4x dose humana) |
| Coelhos | Aumento de mortes fetais (reabsorções) | Supraterapêutica (>1,5x dose humana) |
| Coelhos | Malformações viscerais e esqueléticas | Supraterapêutica |
| Coelhos | Redução do peso materno e fetal | Dose clinicamente relevante |
O achado de aumento de mortes fetais em coelhos a doses que se aproximam da exposição clínica em humanos é o dado mais preocupante. Coelhos são frequentemente melhor preditores de teratogenicidade humana do que ratos — a talidomida, por exemplo, causou malformações em coelhos mas não em ratos, e é teratogênica em humanos.
Limitação importante: doses supraterapêuticas
O Problema dos Dados Humanos
Todos os grandes ensaios clínicos de semaglutida, tirzepatida e retatrutida — STEP, SURMOUNT, fase 2 da retatrutida — excluíram gestantes. Isso é padrão ético em estudos com novas moléculas de risco teórico não quantificado. O resultado prático: chegamos à era de adoção em massa sem dados controlados de segurança gestacional.
Os dados disponíveis vêm de três fontes principais, todas com limitações significativas:
1. Registros de farmacovigilância (OTIS / MotherToBaby)
A Organização de Especialistas em Teratologia (OTIS), que opera o programa MotherToBaby nos EUA, iniciou um registro prospectivo de gestantes expostas a semaglutida.[4] Esses registros coletam dados voluntários de mulheres que entraram em contato com o medicamento durante a gravidez — geralmente de forma não intencional, antes de descobrir a gestação.
O que o MotherToBaby observou até 2024 (dados preliminares):
- A maioria das exposições ocorreu no 1º trimestre, antes do diagnóstico de gravidez.
- Não foi observado aumento dramático de malformações maiores em comparação com a população controle — mas os números são pequenos e o seguimento ainda é curto.
- A maioria das mulheres no registro tinha obesidade ou diabetes tipo 2 — condições que, por si mesmas, aumentam riscos gestacionais, criando confundimento metodológico severo.
- Dados sobre desfechos fetais a longo prazo (desenvolvimento neurológico, metabólico) não estão disponíveis para a coorte exposta a GLP-1.
2. Relatos de caso e séries pequenas
A literatura médica conta com dezenas de relatos de caso de gestações com exposição a semaglutida — a maioria com desfechos favoráveis (bebê nascido saudável após suspensão precoce), alguns com complicações. O problema metodológico dos relatos de caso é que casos com desfecho favorável têm menos probabilidade de ser publicados do que casos adversos — o viés de publicação distorce a percepção de risco para qualquer direção.
3. Estudos de banco de dados administrativos
Um estudo dinamarquês publicado em 2023 utilizou registros nacionais de saúde para identificar gestantes com prescrições de semaglutida e comparar desfechos.[5] Os resultados preliminares não mostraram aumento dramático de malformações maiores, mas o estudo tinha limitações importantes: pequeno número de expostas no 1º trimestre, impossibilidade de controlar adequadamente por dose, duração de exposição e comorbidades.
A ausência de evidência de dano não é evidência de ausência de dano. Para drogas com mecanismo biológico de acesso ao feto, com dados animais adversos documentados, e sem estudos humanos controlados, o princípio de precaução é a única postura cientificamente defensável.
O confundidor intratável: obesidade e diabetes
Qualquer estudo observacional de GLP-1 na gravidez enfrenta um problema metodológico quase intratável: as mulheres que usam esses medicamentos têm, por definição, obesidade ou diabetes tipo 2 — condições que aumentam independentemente o risco de malformações, aborto espontâneo, pré-eclâmpsia, macrossomia, e complicações neonatais. Separar o efeito do medicamento do efeito da doença de base exige estudos de alta qualidade metodológica com controles rigorosos. Esses estudos não existem ainda.
Retatrutida Especificamente: O Que Sabemos (Pouco)
A retatrutida está em fase 3 de estudos clínicos em 2024. Não há prescrição aprovada em nenhum país — no Brasil, circula exclusivamente como composto magistral, fora do contexto regulatório de monitoramento de segurança. Isso torna a situação ainda mais delicada.
O triplo agonismo como amplificador de risco teórico
Como discutido na seção de mecanismo, a retatrutida ativa três receptores: GLP-1R, GIPR e GlucagonR. Dos três, o GlucagonR tem a distribuição mais ampla no tecido fetal e o menor histórico de segurança em contexto reprodutivo.
| Receptor | Expresso no feto? | Função fetal conhecida | Dados de segurança gestacional |
|---|---|---|---|
| GLP-1R | Sim — placenta e feto | Crescimento, diferenciação celular | Limitados (semaglutida) |
| GIPR | Sim — SNC fetal, placenta | Desenvolvimento neural, metabolismo | Muito limitados (tirzepatida) |
| GlucagonR | Sim — fígado, coração, SNC fetal | Metabolismo glicogênio neonatal | Ausentes |
O GlucagonR fetal desempenha papel crítico no período pós-natal imediato: é a via principal de mobilização de glicogênio hepático no recém-nascido, que depende desse mecanismo para manter glicemia nas primeiras horas de vida até que a amamentação seja estabelecida. Modular esse sistema durante o desenvolvimento in utero — com uma molécula que nunca foi estudada em gestantes — é, do ponto de vista científico, um experimento não intencional com consequências desconhecidas.
Retatrutida na gravidez: risco não quantificado
- Não existem dados humanos de exposição à retatrutida durante a gravidez.
- Os estudos animais estão em andamento e não foram publicados integralmente até o fechamento deste artigo.
- O triplo agonismo — especialmente via GlucagonR — representa um perfil de risco teórico mais abrangente do que semaglutida ou tirzepatida.
- Usuárias de retatrutida magistral frequentemente não têm acompanhamento médico estruturado, aumentando o risco de exposição não intencional durante gestação.
- O princípio de precaução é ainda mais reforçado para retatrutida do que para semaglutida.
Meia-vida e clearance
A meia-vida da retatrutida é de aproximadamente 6 dias — similar à semaglutida. Isso significa que após a última dose, a molécula permanece em concentrações detectáveis por 4–5 semanas. O washout para gravidez segura deve seguir a mesma lógica da semaglutida: mínimo de 2 meses após a última dose antes de tentar engravidar, por precaução.
Plano de Ação por Cenário
A informação sobre risco só é útil quando acompanhada de orientação prática. Esta seção descreve o que fazer em cada cenário clínico possível. Em todos os casos, a orientação médica individualizada é insubstituível — este guia orienta a conversa com o médico, não a substitui.
Cenário 1: "Estou usando GLP-1 e quero engravidar"
Este é o cenário de menor risco e maior janela de ação. O planejamento adequado permite suspensão controlada com washout suficiente.
Protocolo recomendado — planejamento de gravidez
- Comunique ao médico prescritor que está planejando engravidar — a decisão de suspender e quando suspender deve ser tomada em conjunto.
- Suspenda com antecedência mínima de 2 meses antes de tentar conceber. Esse intervalo é baseado na meia-vida da semaglutida/tirzepatida/retatrutida (~5–7 dias) e na necessidade de 5–7 meias-vidas para clearance adequado.
- Para semaglutida especificamente: a FDA recomenda suspensão com pelo menos 2 meses de antecedência, pois a meia-vida longa (~1 semana) resulta em exposição residual prolongada.
- Controle metabólico após suspensão: discuta com o médico as estratégias para manter controle glicêmico e de peso no período de washout e durante a gravidez (ver seção sobre alternativas seguras).
- Contraceptivo confiável durante o período de uso de GLP-1 — se gravidez não for desejada agora.
Cenário 2: "Engravidei acidentalmente enquanto usava GLP-1"
Este é o cenário mais comum nos registros de farmacovigilância e o que causa maior ansiedade. A reação correta é estruturada, não é de pânico.
Ação imediata
- Suspenda imediatamente o GLP-1 agonista assim que confirmar a gravidez. Não espere a próxima consulta — cada dose semanal adicional representa exposição desnecessária ao feto em período crítico.
- Contate o obstetra ou ginecologista em 24–48h para iniciar pré-natal e informar sobre a exposição. O médico irá registrar a exposição, solicitar ultrassonografia morfológica de 1º trimestre e definir seguimento.
- Registre no MotherToBaby (se estiver nos EUA, mothertobaby.org) ou no programa de farmacovigilância da Anvisa — esses dados coletivos são o que vai construir o conhecimento de segurança para futuras gestantes.
- Não tome decisões drásticas com base exclusivamente em dados animais — os dados humanos disponíveis, embora limitados, não mostram aumento catastrófico de risco. Converse com o obstetra sobre a avaliação completa do risco individualizado.
O que esperar: o obstetra provavelmente solicitará ultrassonografia morfológica do 1º trimestre (11–14 semanas), ecocardiografia fetal e ultrassonografia morfológica do 2º trimestre (20–22 semanas) com atenção especial. A maioria das gestações com exposição precoce e suspensão imediata tem bom desfecho — mas o monitoramento cuidadoso é mandatório.
Cenário 3: "Tenho diabetes tipo 2 e preciso de controle glicêmico durante a gravidez"
Esta é a situação de maior complexidade clínica. A pergunta implícita é: se não posso usar GLP-1, como controlo o diabetes? A resposta da medicina baseada em evidências é clara: insulina é o padrão-ouro para controle glicêmico na gravidez, com décadas de dados de segurança fetal.[6]
A maioria das mulheres com diabetes tipo 2 que engravida precisará migrar para insulina — independentemente de estar ou não usando GLP-1. Essa transição deve ser planejada com o endocrinologista e o obstetra, idealmente antes da concepção.
Cenário 4: "Tenho obesidade severa — parar o GLP-1 me preocupa"
Esse cenário merece uma seção específica, abordada a seguir no contexto do dilema peso/benefício.
Alternativas Seguras para Controle Metabólico na Gravidez
GLP-1 agonistas, tirzepatida e retatrutida são contraindicados na gravidez. As alternativas com perfil de segurança estabelecido incluem:
- Insulina (padrão-ouro): Insulina humana NPH e insulina regular são as opções com maior histórico de segurança fetal. Análogos como lispro e aspart também têm bons dados de segurança na gravidez. A insulina não atravessa a placenta em quantidades significativas.
- Metformina: Usada amplamente no controle de diabetes gestacional e SOP. Atravessa a placenta, mas décadas de dados não mostram teratogenicidade significativa. Algumas diretrizes ainda preferem insulina, mas metformina é considerada razoavelmente segura por muitos obstetras.
- Alimentação low-carb adaptada: Redução de carboidratos refinados e controle glicêmico por dieta é estratégia segura e eficaz durante a gravidez, especialmente no diabetes gestacional leve.
- Exercício aeróbico adaptado: Caminhada, hidroginástica e exercícios de baixo impacto são seguros e melhoram sensibilidade à insulina durante a gravidez.
- Para obesidade severa: A suspensão do GLP-1 não exige recuperação de todo o peso — a maioria das mulheres que para o medicamento antes de engravidar mantém parte da perda de peso com dieta e exercício. O objetivo não é peso ideal, mas controle glicêmico adequado durante os 9 meses.
Converse com endocrinologista e obstetra para construir o plano individualizado. Não existe resposta única para todas as situações.
O Real Dilema: Obesidade na Gravidez Também Traz Riscos
Seria intelectualmente desonesto apresentar os riscos do GLP-1 na gravidez sem contextualizar os riscos da obesidade não tratada durante a gestação. Este é o dilema real que médicos e pacientes enfrentam — e ele merece tratamento honesto.
Riscos da obesidade materna na gravidez
Obesidade materna (IMC ≥ 30) está associada a riscos documentados para a mãe e o feto:[7]
| Complicação | Risco relativo em obesidade vs. peso normal | Impacto fetal/neonatal |
|---|---|---|
| Diabetes gestacional | 2–8x maior | Macrossomia, hipoglicemia neonatal |
| Pré-eclâmpsia | 2–3x maior | Prematuridade, RCIU |
| Parto cesáreo | 2x maior | Complicações cirúrgicas, recuperação mais lenta |
| Defeitos do tubo neural | RR ~1,7 | Anencefalia, espinha bífida |
| Cardiopatias congênitas | RR ~1,3–1,5 | Malformações cardíacas |
| Morte fetal intrauterina | 1,5–2x maior | Especialmente no 3º trimestre |
| Obesidade infantil | RR ~2x | Programação metabólica fetal |
Esses dados mostram que a obesidade materna, em si, é um fator de risco gestacional significativo — não um estado neutro. A ideia de que "simplesmente parar o GLP-1" é a resposta sem risco ignora que a doença de base também tem custo.
Como equilibrar os dois lados?
A resposta honesta é: não existe equilíbrio perfeito, e não existe protocolo único. O que existe são princípios orientadores:
- Planejamento prospectivo é sempre superior à gestão reativa. Uma mulher que planeja a gravidez com 6 meses de antecedência, faz washout adequado, otimiza o controle metabólico pré-concepção e inicia o pré-natal com IMC mais próximo do ideal tem muito melhor prognóstico do que aquela que descobre a gravidez em uso ativo do medicamento.
- O GLP-1 não precisa ser usado durante a gravidez para oferecer benefício. A perda de peso obtida antes da gravidez reduz os riscos associados à obesidade durante a gestação — sem exposição fetal ao medicamento.
- A obesidade severa (IMC ≥ 40) durante a gravidez tem riscos maiores do que obesidade moderada. Para mulheres com IMC muito elevado, a conversa com o obstetra sobre estratégia de controle de peso pré-concepção é especialmente importante.
- Suspensão do GLP-1 não equivale a recuperação total de peso em curto prazo. A maioria das mulheres mantém parte da perda de peso por meses após a suspensão, especialmente com manutenção de hábitos alimentares adaptados.
A questão não é 'GLP-1 é seguro ou perigoso na gravidez'. A questão é: como ajudar mulheres que precisam desses medicamentos a planejar a gravidez de forma a minimizar exposição fetal e maximizar controle metabólico materno antes e durante a gestação.
O que as diretrizes dizem
O ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) publica periodicamente boletins sobre obesidade e gravidez.[7] As recomendações atuais incluem:
- Aconselhamento pré-concepcional para mulheres obesas que planejam engravidar, incluindo discussão sobre perda de peso antes da concepção.
- GLP-1 agonistas devem ser descontinuados antes da concepção — mas a diretriz reconhece que gravidez não planejada pode ocorrer.
- Para mulheres que engravidam em uso de GLP-1: suspensão imediata e encaminhamento para cuidado obstétrico especializado.
- O controle glicêmico durante a gravidez deve ser alcançado com insulina como primeira linha em diabéticas tipo 2.
Resumo visual: o que fazer conforme o momento
| Situação | Ação principal | Prazo | Especialista |
|---|---|---|---|
| Usando GLP-1, não planeja gravidez agora | Manter contraceptivo eficaz; revisar plano reprodutivo anualmente | Contínuo | Ginecologista / prescritor GLP-1 |
| Usando GLP-1, planeja engravidar nos próximos 6–12 meses | Iniciar planejamento de suspensão + washout 2 meses + otimização metabólica pré-concepção | 6–12 meses antes | Endocrinologista + Ginecologista |
| Grávida, foi exposta ao GLP-1 no 1º trimestre | Suspender imediatamente + pré-natal especializado + ultrassonografia morfológica | Imediato | Obstetra / medicina fetal |
| Diabética tipo 2, quer engravidar | Planejar transição para insulina antes da concepção | 3–6 meses antes | Endocrinologista + Obstetra |
| Obesa (IMC ≥35), quer engravidar | Usar GLP-1 para perda de peso pré-concepção + suspender com washout antes de tentar | Planejado | Endocrinologista + Obstetra |
Este artigo não substitui orientação médica
Referências Científicas
- [1]Holst JJ, Rosenkilde MM. GLP-1 receptor agonists: the evolving biology. Physiology & Behavior. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32877742/
- [2]Eli Lilly and Company. Mounjaro (tirzepatide) Prescribing Information — seção Pregnancy. FDA Label. 2023. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2023/215866s006lbl.pdf
- [3]Novo Nordisk. Ozempic (semaglutide) Prescribing Information — seções Pregnancy e Nonclinical Toxicology. FDA Label. 2023. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2023/209637s012lbl.pdf
- [4]Organization of Teratology Information Specialists (OTIS). Semaglutide Pregnancy Exposure Registry — MotherToBaby Fact Sheet. 2023. Disponível em: https://mothertobaby.org/fact-sheets/semaglutide/
- [5]Danielsen ME et al. Pregnancy outcomes after first-trimester exposure to semaglutide: a Danish nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine. 2024. Disponível em: https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M24-0030
- [6]American Diabetes Association. Management of Diabetes in Pregnancy: Standards of Medical Care in Diabetes — 2024. Diabetes Care. 2024. Disponível em: https://diabetesjournals.org/care/article/47/Supplement_1/S282/153971/
- [7]American College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Practice Bulletin No. 230: Obesity in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology. 2021. Disponível em: https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/practice-bulletin/articles/2021/06/obesity-in-pregnancy