Entre os suplementos mais pesquisados por mulheres grávidas, o colágeno hidrolisado ocupa uma posição singular: é o único peptídeo amplamente consumido que possui, pelo menos, sinais preliminares de segurança durante a gestação. Enquanto peptídeos terapêuticos de pesquisa como BPC-157, secretagogos de GH e análogos de kisspeptina operam em território de dados precários ou ausentes para gestantes, o colágeno hidrolisado pertence à categoria nutricional — e os estudos disponíveis, ainda que limitados, apontam para tolerabilidade razoável quando a fonte é certificada.

Isso não significa que qualquer produto de colágeno seja automaticamente seguro na gravidez. Significa que a conversa sobre colágeno durante a gestação tem uma base científica diferente — mais concreta, mais útil — do que a maioria das discussões sobre peptídeos e suplementação em gestantes. Este artigo organiza essa base: o que o colágeno faz fisiologicamente durante a gravidez, o que os estudos mostram, onde os riscos existem de verdade, e como a suplementação se compara à abordagem alimentar.

Colágeno na Gravidez — O Cenário

28
Tipos de colágeno identificados no organismo humano
~30%
Das proteínas totais do corpo humano são colágeno
I, III, IV
Tipos predominantes na placenta e tecidos fetais
1–2×/dia
Dose estudada em gestantes no 3º trimestre (segura e bem tolerada)

O Que é Colágeno Hidrolisado: Conceitos Básicos

Antes de avaliar segurança e benefícios, vale precisar o que é exatamente o produto que estamos discutindo. O colágeno é a proteína mais abundante do corpo humano — representa cerca de 30% de toda a proteína corporal e é o principal componente da matriz extracelular de praticamente todos os tecidos conjuntivos. Estruturalmente, é formado por três cadeias polipeptídicas enroladas em tripla hélice, estabilizadas por ligações de hidrogênio e covalentes entre resíduos de hidroxiprolina e hidroxilisina.

O colágeno hidrolisado — também chamado de peptídeos de colágeno ou colágeno peptidizado — é obtido pela hidrólise enzimática (ou ácida) do colágeno nativo, quebrando a tripla hélice em fragmentos menores chamados peptídeos. Esses peptídeos têm peso molecular típico de 1.000 a 5.000 Daltons (Da), comparado a centenas de milhares de Daltons do colágeno nativo. Essa redução de tamanho é responsável pela biodisponibilidade superior: enquanto o colágeno nativo precisa ser completamente digerido antes de absorção, os peptídeos de colágeno hidrolisado são absorvidos parcialmente intactos no intestino delgado.[7]

É exatamente essa capacidade de absorção como dipeptídeos e tripeptídeos — como Pro-Hyp (prolil-hidroxiprolina) e Hyp-Gly (hidroxiprolil-glicina) — que distingue o colágeno hidrolisado da simples ingestão de proteína genérica. Esses pequenos peptídeos têm atividade biológica própria: estimulam fibroblastos a produzir mais colágeno endógeno in vitro, o que representa um mecanismo de ação distinto da simples reposição de aminoácidos.[8]

O Papel Fisiológico do Colágeno Durante a Gestação

O colágeno não é um suplemento de luxo durante a gravidez — é uma proteína estrutural central para múltiplos processos que ocorrem durante os nove meses. Compreender essa fisiologia é o primeiro passo para avaliar se a suplementação faz sentido.

Colágeno na placenta

A placenta é um órgão temporário de extraordinária complexidade estrutural. O colágeno tipo IV forma a membrana basal dos vilos coriônicos — estruturas responsáveis pela troca de nutrientes, oxigênio e resíduos entre mãe e feto.[1] O colágeno tipo I e III compõem o estroma placentário, fornecendo sustentação mecânica ao órgão que irá sustentar o feto por toda a gestação.

Disfunções na síntese de colágeno placentário estão associadas a complicações como pré-eclâmpsia e restrição de crescimento intrauterino, o que reforça a importância metabólica dessa proteína — embora não haja evidência direta de que suplementação materna corrija essas condições.[2]

Tecido conjuntivo fetal

Praticamente todos os tecidos conjuntivos em formação no feto dependem de síntese ativa de colágeno: pele, tendões, ligamentos, cartilagem, ossos, paredes vasculares, córnea. O feto não depende do colágeno materno intacto — ele sintetiza seus próprios peptídeos de colágeno a partir de aminoácidos circulantes, principalmente glicina, prolina e hidroxiprolina.[3]

Isso tem implicação direta para a suplementação: o que importa não é a transferência de moléculas de colágeno hidrolisado da mãe para o feto, mas sim a disponibilidade dos aminoácidos precursores. Uma gestante com ingestão proteica adequada já oferece substrato suficiente para a síntese de colágeno fetal. A suplementação aumenta esse pool de aminoácidos específicos — potencialmente útil, mas não indispensável se a dieta for equilibrada.

Suporte ao períneo e à parede abdominal

O aumento do volume uterino exerce pressão mecânica progressiva sobre o assoalho pélvico, os ligamentos de suporte e a parede abdominal. A integridade do colágeno nessas estruturas é determinante para a resistência a rupturas, prolapsos e diástase abdominal durante e após o parto.[4] Mulheres com variantes genéticas que afetam a síntese de colágeno (como mutações em genes COL1A1 e COL3A1) apresentam maior risco de lesões perineais ao parto.[5]

O colágeno não sustenta apenas a estética gestacional — ele estrutura literalmente a placenta, o assoalho pélvico e os tecidos em formação do feto.

Colágeno Hidrolisado vs. Colágeno Alimentar

Existe uma distinção importante que frequentemente se perde nas conversas sobre suplementação na gravidez: colágeno alimentar (obtido via caldo de ossos, pele de frango, gelatina) e colágeno hidrolisado em pó são categorias distintas do ponto de vista da biodisponibilidade, do processamento e das evidências disponíveis.

CaracterísticaColágeno Alimentar (Caldo de Ossos)Colágeno Hidrolisado (Suplemento)
Forma molecularCadeias longas parcialmente desnaturadasPeptídeos curtos (2–10 aminoácidos)
BiodisponibilidadeModerada — depende da digestãoAlta — peptídeos absorvidos diretamente
Aminoácidos predominantesGlicina, prolina, hidroxiprolinaGlicina, prolina, hidroxiprolina
Contaminantes potenciaisMetais pesados se ossos de baixa qualidadeMetais pesados se matéria-prima sem certificação
Evidência em gestantesUso tradicional milenar; dados formais limitadosPelo menos 1 RCT em 3º trimestre com dados de segurança
Status regulatórioAlimentoSuplemento alimentar (GRAS nos EUA)
CustoBaixo (caseiro)Moderado a alto

Do ponto de vista de segurança, ambas as formas são provavelmente seguras quando a origem é confiável. A vantagem do colágeno hidrolisado certificado é a padronização — você sabe exatamente quanto está consumindo e, se o fabricante tiver laudos de análise, a ausência de contaminantes está documentada. O caldo de ossos caseiro feito com ossos de fornecedores rastreáveis também é uma opção segura e mais acessível financeiramente.

Recomendação Prática

Se optar por caldo de ossos durante a gravidez, prefira ossos de fontes rastreáveis (animais criados sem uso intensivo de metais pesados em ração). Se optar por suplemento, exija laudo de análise de metais pesados — arsênio, chumbo, cádmio e mercúrio são os contaminantes mais relevantes nessa categoria.

O Estudo em Gestantes: O Que Sabemos de Fato

A literatura sobre suplementação de colágeno na gravidez é significativamente menor do que a existente para outras populações, mas não é vazia. O ensaio clínico mais relevante avaliou gestantes no terceiro trimestre recebendo suplementação de colágeno hidrolisado duas vezes ao dia.[6]

Resultados principais

O estudo demonstrou que a suplementação foi segura e bem tolerada ao longo do período de intervenção. Os desfechos avaliados incluíram qualidade de vida materna, parâmetros de cicatrização (relevantes para o pós-parto imediato), e níveis séricos de proteína total. As participantes que receberam colágeno apresentaram melhora em marcadores relacionados à qualidade de vida e suporte estrutural em comparação ao grupo controle.

Importante registrar as limitações: o estudo foi conduzido no terceiro trimestre — o período de menor risco de teratogenicidade, pois a organogênese já está concluída. Não há dados de ensaios clínicos formais para o primeiro trimestre, que é o período de maior vulnerabilidade fetal. Estudos observacionais com uso de gelatina (forma não hidrolisada de colágeno) em populações que consomem caldos de ossos regularmente durante toda a gravidez não mostraram sinais de malefício, mas esse tipo de dado tem limitações metodológicas evidentes.

Lacuna Crítica de Dados

  • Não existem estudos de transferência placentária específicos para peptídeos de colágeno hidrolisado em humanos.
  • Não há ensaios clínicos formais no primeiro trimestre — o período de maior risco de teratogenicidade.
  • A maioria dos dados de segurança vem de uso alimentar tradicional (gelatina, caldo de ossos), não de suplementos industriais concentrados.
  • Doses acima das estudadas (doses terapêuticas muito altas) não têm dados de segurança gestacional.

Transferência Placentária: O Que Acontece com os Peptídeos

Uma das perguntas mais legítimas sobre qualquer suplemento na gravidez é: o que atravessa a placenta? Para o colágeno hidrolisado, a resposta é tecnicamente clara em termos de mecanismo, mas carente de dados quantitativos específicos.

O que os peptídeos de colágeno fazem após absorção

Após ingestão oral, o colágeno hidrolisado é digerido no trato gastrointestinal. Uma fração é absorvida como dipeptídeos e tripeptídeos intactos — principalmente prolil-hidroxiprolina (Pro-Hyp) e hidroxiprolil-glicina (Hyp-Gly). Esses peptídeos curtos têm sido detectados no plasma sanguíneo em estudos farmacocinéticos.[7] Parte maior é completamente hidrolisada a aminoácidos livres antes da absorção.

A questão central é se esses peptídeos plasmáticos atravessam a barreira placentária. Peptídeos pequenos podem cruzar membranas via transportadores específicos, e a placenta possui múltiplos sistemas de transporte de aminoácidos e peptídeos para suprir o feto. No entanto, não há estudos publicados que tenham medido diretamente a concentração de peptídeos derivados de colágeno hidrolisado no sangue fetal ou no líquido amniótico após suplementação materna.

O cenário mais provável, baseado em bioquímica básica, é que a maior parte dos peptídeos absorvidos é rapidamente degradada ou utilizada pela circulação materna, e o que chega ao feto são predominantemente aminoácidos livres — a matéria-prima que o feto usará para sintetizar seu próprio colágeno. Esse mecanismo é biologicamente benigno e não levanta preocupações teratogênicas conhecidas.[8]

O feto não precisa de colágeno materno — ele precisa de glicina, prolina e hidroxiprolina. A suplementação de colágeno hidrolisado oferece exatamente esses aminoácidos de forma concentrada.
Princípio da síntese de colágeno fetal

Benefícios Teóricos na Gravidez: O Que Faz Sentido Biologicamente

Dada a fisiologia descrita, alguns benefícios da suplementação de colágeno durante a gestação têm base racional — mesmo que as evidências clínicas diretas sejam limitadas.

Suporte à integridade do períneo

O assoalho pélvico e o períneo sofrem tensão mecânica crescente durante a gestação e trauma agudo durante o parto vaginal. A qualidade do tecido conjuntivo nessas estruturas influencia diretamente o risco de lacerações perineais, a capacidade de recuperação pós-parto e o risco de prolapso a longo prazo.[9] Mulheres com maior densidade de colágeno nos tecidos pélvicos tendem a ter menor incidência de lesões perineais graves.

A suplementação de colágeno hidrolisado + vitamina C é a estratégia com melhor base bioquímica para suporte à síntese de colágeno perineal — a vitamina C é cofator indispensável da prolil-hidroxilase, enzima que catalisa a hidroxilação da prolina na síntese de colágeno. Sem vitamina C adequada, o colágeno suplementado não tem o cofator enzimático necessário.

Redução de estrias

As estrias gravídicas (striae gravidarum) são resultado de ruptura das fibras de colágeno e elastina dérmicas pela expansão rápida do abdômen. Estima-se que 50–90% das gestantes desenvolvam estrias em algum grau, dependendo de fatores genéticos, velocidade de ganho de peso e hidratação da pele.[10]

Embora estudos específicos sobre colágeno hidrolisado oral e prevenção de estrias gravídicas sejam escassos, a biologia é favorável: suplementação de colágeno melhora a elasticidade dérmica e a densidade de colágeno cutâneo em populações não grávidas. Estudos sobre uso tópico de óleos e cremes durante a gestação mostram resultados inconsistentes — a via oral tem base mecanicista potencialmente mais sólida.

Suporte articular sob sobrepeso gestacional

O ganho de peso gestacional médio de 11–16 kg aumenta significativamente a carga mecânica sobre joelhos, tornozelos e quadris. Dor articular gestacional (principalmente gonalgia e lombalgia) afeta 40–70% das gestantes.[11] O colágeno tipo II é o componente estrutural dominante da cartilagem articular. Estudos em populações com osteoartrite demonstram que o colágeno hidrolisado reduz marcadores de degradação cartilaginosa e melhora escores de dor articular.[12]

A extrapolação para o contexto gestacional é biologicamente razoável — o mecanismo de suporte à cartilagem não muda durante a gravidez. Entretanto, dados diretos em gestantes ainda não existem para este desfecho específico.

Benefícios Teóricos vs. Evidência

Moderada
Evidência para suporte ao períneo (dados indiretos + biologia clara)
Fraca
Evidência específica para redução de estrias gravídicas (sugestiva, não confirmada)
Moderada
Evidência para suporte articular (dados em não-grávidas + mecanismo sólido)
Boa
Evidência de segurança no 3º trimestre (RCT direto)

O Risco Real: Contaminantes em Colágeno de Baixa Qualidade

O maior risco documentado associado ao colágeno suplementar na gravidez não é o colágeno em si — é a origem da matéria-prima. Colágeno de baixa qualidade pode conter concentrações preocupantes de metais pesados, especialmente quando derivado de ossos e peles de animais criados em condições com exposição ambiental elevada.

Metais pesados: o problema específico

Chumbo (Pb), arsênio (As), cádmio (Cd) e mercúrio (Hg) são os metais mais relevantes. O chumbo é particularmente preocupante porque se acumula em ossos e é mobilizado durante a gravidez — ossos maternos são uma fonte de cálcio para o feto, e o chumbo segue o mesmo caminho metabólico. Qualquer produto de colágeno derivado de ossos que não tenha sido produzido com matéria-prima rastreada pode concentrar chumbo.[13]

Critérios Mínimos de Segurança para Colágeno na Gravidez

  • Laudo de análise de metais pesados por laboratório acreditado (chumbo < 0,5 ppm, arsênio < 1 ppm, cádmio < 0,3 ppm, mercúrio < 0,1 ppm).
  • Rastreabilidade da origem animal — bovino, suíno ou marinho criado com boas práticas documentadas.
  • Certificação de terceiros (NSF, Informed Sport, ou equivalente nacional) como camada adicional de garantia.
  • Evitar colágeno marinho de origem desconhecida — peixes de regiões com poluição elevada podem acumular mercúrio na pele e escamas.
  • Jamais usar colágeno de marcas sem CNPJ rastreável ou vendidas sem procedência declarada.

Microbiológico e adulteração

Produtos sem certificação podem estar adulterados com fontes proteicas mais baratas (gelatina industrial, proteína de soja hidrolisada) que não fornecem o perfil aminoacídico do colágeno. Durante a gravidez, quando a demanda proteica está aumentada e a escolha do suplemento é mais criteriosa, a autenticidade da composição importa diretamente para o resultado esperado.

Colágeno vs. Peptídeos Terapêuticos: Uma Distinção Fundamental

O mercado de peptídeos no Brasil frequentemente agrupa, nas mesmas conversas e nas mesmas plataformas, compostos com perfis de risco completamente diferentes. É importante que gestantes — e profissionais que as orientam — compreendam essa distinção.

CategoriaExemplosStatus RegulatórioDados em Gestantes
Colágeno hidrolisadoColágeno bovino, marinho, suínoSuplemento alimentar (GRAS/ANVISA)Pelo menos 1 RCT; uso alimentar milenar
Peptídeos de pesquisaBPC-157, TB-500, GHK-CuNão aprovados para uso humano (pesquisa)Ausentes em humanos; dados animais insuficientes
Secretagogos de GHIpamorelin, CJC-1295, GHRP-6Uso off-label não autorizadoContraindacados — modulam eixo GH/IGF-1 fetal
Análogos de GLP-1Semaglutida, tirzepatidaMedicamentos prescritosContraindicados — dados de segurança insuficientes
Peptídeos hormonaisHCG, kisspeptina análogosMedicamentos com indicações específicasUso apenas com supervisão especializada

O colágeno hidrolisado está na mesma categoria regulatória de proteína de whey, aminoácidos essenciais e gelatina alimentar — todos derivados de alimentos, com histórico de consumo humano extenso e mecanismo de ação nutricional (não farmacológico). Os peptídeos de pesquisa, por contraste, são moléculas bioativas que modulam receptores, vias de sinalização e cascatas hormonais — com potencial de efeitos off-target em tecidos fetais em desenvolvimento.

A Regra de Ouro na Gravidez

Qualquer composto com atividade farmacológica — que modula receptores, altera sinalização celular ou age em vias hormonais — requer dados de segurança gestacional antes do uso. O colágeno hidrolisado age como nutriente, não como fármaco. Essa distinção é fundamental e não deve ser minimizada.

Quando o Suplemento de Colágeno Não é Suficiente

Suplementação de colágeno hidrolisado não substitui uma abordagem nutricional completa para suporte ao tecido conjuntivo durante a gravidez. Existem cenários em que o suplemento em si não resolve o problema de base.

Deficiência de cofatores essenciais

A síntese de colágeno é um processo enzimático que depende de múltiplos cofatores. Deficiência em qualquer um deles limita a síntese independentemente da quantidade de aminoácidos precursores disponíveis:[14]

  • Vitamina C (ácido ascórbico): Cofator essencial das enzimas prolil e lisil-hidroxilase. Deficiência grave causa escorbuto — ruptura de tecido conjuntivo em todos os estágios da vida. Doses diárias de 85 mg (DRI para gestantes) são o mínimo; 200–500 mg pode ser necessário em situações de demanda aumentada.
  • Zinco: Cofator de metaloproteases envolvidas no remodelamento da matriz extracelular. Deficiência prejudica cicatrização e remodelamento do colágeno.
  • Cobre: Cofator da lisil-oxidase, enzima que cross-linka fibras de colágeno para formar estruturas resistentes. Sem cobre, o colágeno formado é estruturalmente fraco.
  • Vitamina B6: Envolvida no metabolismo da glicina e prolina.
  • Ferro: Necessário para a hidroxilação da prolina (cofator não-heme de prolil-hidroxilase).

Uma gestante com deficiência de vitamina C e ferro — situação não incomum em contextos de alimentação inadequada — não se beneficiará significativamente de suplementação de colágeno sem corrigir esses déficits primeiro.

Ingestão proteica total insuficiente

A demanda proteica na gravidez aumenta para aproximadamente 1,1 g/kg/dia no segundo e terceiro trimestres (comparado a 0,8 g/kg/dia fora da gravidez). Uma gestante com ingestão proteica cronicamente baixa — situação comum em contextos de náusea persistente do primeiro trimestre ou restrição alimentar — não se beneficiará de colágeno como intervenção isolada. A prioridade é adequar a ingestão proteica total; o colágeno é um complemento, não uma correção primária.

Quando a abordagem alimentar é suficiente

Gestantes com dieta equilibrada, ingestão proteica adequada e consumo regular de fontes alimentares de colágeno (caldo de ossos, carnes com tendões e cartilagem, ovos) provavelmente não precisam de suplementação. A suplementação com colágeno hidrolisado é mais justificável em gestantes com dificuldade de ingestão alimentar diversificada, náuseas prolongadas, sobrepeso gestacional com dor articular, ou risco aumentado de lesão perineal.

Colágeno sem vitamina C é como construir uma casa sem cimento — você tem os tijolos, mas eles não se sustentam. A suplementação de colágeno sem cofatores adequados tem eficácia comprometida.
Bioquímica da síntese de colágeno

Protocolo Prático: Se Optar por Suplementar

Para gestantes que, após discussão com seu médico ou nutricionista, decidirem suplementar colágeno hidrolisado, as seguintes diretrizes são razoáveis com base nos dados disponíveis:

ParâmetroRecomendaçãoJustificativa
MomentoDe preferência 2º e 3º trimestreOrganogênese concluída; dados de RCT no 3º trimestre
Dose10–15 g/dia (1–2 doses)Dose estudada em gestantes; alinhada com doses de estudos em adultos
TipoHidrolisado bovino ou marinho certificadoMelhor biodisponibilidade; tipo I/III para pele/tendão; tipo II para cartilagem
Cofatores essenciaisVitamina C (200–500 mg) junto com colágenoCofator da prolil/lisil-hidroxilase — sem isso, síntese é comprometida
HorárioPreferencialmente em jejum ou longe de refeições ricas em fitatosOtimiza absorção de peptídeos e zinco
DuraçãoContínuo enquanto indicado pelo profissionalSem dados de toxicidade por uso prolongado em adultos
Contraindicação relativa1º trimestre sem supervisão médicaAusência de dados formais no período de organogênese

Nunca Suplementar Sem Orientação Médica

Embora o perfil de segurança do colágeno hidrolisado seja favorável em relação a outros suplementos, qualquer suplementação durante a gravidez deve ser discutida com o obstetra ou nutricionista responsável pelo pré-natal. Isso inclui avaliação de interações com outros suplementos prescritos (cálcio, ferro, ácido fólico) e verificação de contraindicações individuais.

Fontes Alimentares: A Abordagem de Menor Risco

Para gestantes que preferem priorizar a alimentação em vez de suplementos, as fontes naturais de colágeno e seus precursores oferecem uma alternativa segura e acessível:

  • Caldo de ossos articulares: Rico em colágeno tipo I, II e III, glicina, glucosamina e condroitina. Preparado com ossos de frango, bovino ou suíno de boa procedência, cozidos por 12–24h com um fio de vinagre (aumenta extração de minerais e colágeno). Consumir 1–2 xícaras ao dia fornece aminoácidos equivalentes a uma dose de suplemento.
  • Pele de frango e peixe: Fonte concentrada de colágeno tipo I. Consumo regular é seguro e nutritivo.
  • Ovos (clara e gema): Rica em prolina (gema) e glicina (clara) — precursores diretos de colágeno.
  • Gelatina sem sabor: Colágeno parcialmente hidrolisado. Mais acessível que colágeno hidrolisado puro; menor biodisponibilidade, mas eficaz para aumentar o pool de aminoácidos específicos.
  • Vitamina C de fontes alimentares: Acerola, goiaba, kiwi, pimentão vermelho — o cofator essencial que potencializa toda síntese de colágeno.

Caldo de Ossos Caseiro: Protocolo Seguro na Gravidez

Ossos articulares (joelho de boi, pés de frango) de açougue rastreável + água filtrada + 1 colher de sopa de vinagre de maçã. Cozinhar em panela de pressão por 3–4h ou panela comum por 12–24h em fogo baixo. Coar e refrigerar — a camada de gordura que solidifica pode ser removida. O caldo pode ser consumido puro ou usado como base para sopas. Essa preparação é usada em culturas alimentares diversas há milênios e tem perfil de segurança estabelecido pelo uso tradicional extenso.

Glicina: O Aminoácido Central que Ninguém Menciona

A glicina é o aminoácido mais abundante no colágeno — representa aproximadamente 33% de todos os resíduos de aminoácidos (todo terceiro resíduo na sequência repetitiva Gly-X-Y da tripla hélice). É classificada como aminoácido não essencial — o organismo pode sintetizá-la — mas durante a gravidez, a demanda por glicina excede em muito a capacidade de síntese endógena, tornando-a "condicionalmente essencial" na gestação.[3]

Estimativas metabólicas sugerem que a gravidez requer de 10 a 13 g de glicina adicional por dia para suprir a síntese de tecidos fetais, crescimento uterino, síntese de hemoglobina e produção de bile e creatina materna — e a dieta ocidental típica fornece apenas 1,5 a 3 g de glicina por dia. Essa lacuna é coberta parcialmente pela síntese endógena (limitada) e pela ingestão de fontes ricas em colágeno (caldos de ossos, carnes com cartilagem e tendões, gelatina).[14]

Uma dose de 15 g de colágeno hidrolisado fornece aproximadamente 4–5 g de glicina — uma contribuição significativa para fechar esse gap. Isso posiciona o colágeno hidrolisado menos como "suplemento de beleza" e mais como fonte de aminoácidos com deficiência específica durante a gravidez. Essa perspectiva tem respaldo na bioquímica de forma muito mais robusta do que a maioria das alegações de marketing sobre colágeno.

Qual Tipo de Colágeno Escolher na Gravidez

O mercado de colágeno oferece múltiplos tipos, origens animais e formas de processamento. Para a gestante navegando essas escolhas, entender as diferenças práticas é mais útil do que a terminologia técnica.

Por tipo molecular

O colágeno tipo I é o mais abundante no corpo humano — presente em pele, tendões, ligamentos, ossos e paredes vasculares. É o tipo mais relevante para suporte a estrias, períneo e integridade dérmica geral. O colágeno tipo II é o principal componente da cartilagem articular e é o mais estudado para alívio de dor articular. O colágeno tipo III coexiste com o tipo I em pele e vasos, sendo especialmente importante na fase inicial de cicatrização de feridas e na elasticidade vascular.[4]

A maioria dos suplementos de colágeno bovino hidrolisado fornece predominantemente tipos I e III — o mais relevante para a maioria das necessidades gestacionais (pele, períneo, suporte estrutural). Suplementos de colágeno tipo II são mais específicos para queixas articulares e geralmente vêm em doses menores (40 mg/dia de colágeno tipo II não desnaturado vs. 10 g/dia de colágeno hidrolisado tipos I/III).

Por origem animal

OrigemTipos PredominantesVantagemConsideração na Gravidez
BovinoI, IIIBem estudado; perfil aminoacídico sólidoVerificar rastreabilidade; risco teórico de chumbo em ossos de baixa qualidade
SuínoI, IIIAlta biodisponibilidade; custo menorMesmas considerações do bovino; alguns grupos evitam por restrições religiosas/culturais
Marinho (peixe)IMenor peso molecular — pode ter absorção ainda mais rápidaVerificar origem: peixes de regiões poluídas podem conter mercúrio na pele/escamas
Frango (cartilagem)IIIdeal para queixas articularesMenos estudado em gestantes; dose muito menor que tipos I/III
Casca de ovoI, XFonte alternativa menos comumDados limitados; não é primeira escolha na gravidez

Colágeno vegano: o que existe de fato

Não existe colágeno de origem vegetal — colágeno é uma proteína estrutural de animais vertebrados, sintetizada por fibroblastos com maquinaria bioquímica específica inexistente em plantas. O que o mercado chama de "colágeno vegano" são, na verdade, dois produtos distintos: aminoácidos precursores de colágeno (glicina, prolina, vitamina C — que estimulam a síntese endógena) ou proteínas estruturais de plantas (como proteína de ervilha ou arroz) sem relação funcional com colágeno.[8]

Para gestantes veganas, a estratégia mais racional é garantir ingestão adequada dos precursores: proteína total suficiente (leguminosas, tofu, tempeh), vitamina C, zinco e cobre de fontes vegetais, e considerar suplementação de glicina — o aminoácido mais limitante na síntese de colágeno em dietas plant-based.

Primeiro Trimestre: A Zona de Maior Cautela

O primeiro trimestre é o período de organogênese — quando os principais órgãos, sistemas e estruturas fetais se formam a partir de células indiferenciadas. É o período de maior vulnerabilidade a agentes teratogênicos e, consequentemente, o período onde qualquer suplemento não essencial merece avaliação mais criteriosa.

Por que os dados são escassos neste período

Ensaios clínicos randomizados convencionalmente excluem gestantes, especialmente no primeiro trimestre, por razões éticas óbvias. Não é possível expor deliberadamente gestantes a substâncias não comprovadas durante a organogênese para testar segurança. Isso significa que os dados de segurança para praticamente qualquer suplemento no primeiro trimestre vêm de estudos observacionais (mulheres que usaram sem saber que estavam grávidas) ou de extrapolação de dados em outros períodos gestacionais.[6]

Para o colágeno hidrolisado, especificamente, não há evidência de teratogenicidade em estudos animais — e os aminoácidos fornecidos (glicina, prolina, hidroxiprolina) são aminoácidos naturalmente presentes em todas as dietas proteicas. A glicina, em particular, é o aminoácido não essencial mais abundante no organismo humano e é consumida em grandes quantidades por gestantes que comem carne normalmente. Nesse contexto, o risco teórico de suplementação de colágeno hidrolisado no primeiro trimestre é baixo — mas a ausência de dados formais justifica cautela e discussão com o médico antes de iniciar.

Náusea do Primeiro Trimestre e Colágeno

A náusea gestacional frequentemente torna o consumo de qualquer suplemento desafiador. O colágeno hidrolisado em pó misturado em água quente ou fria é geralmente bem tolerado gastrointestinalmente — mas gestantes com hiperêmese gravídica grave devem priorizar hidratação e suporte médico antes de qualquer suplementação. Colágeno em cápsulas pode ser mais tolerável que pó dissolvido em líquido para gestantes com olfato hipersensível.

Colágeno no Pós-Parto: O Momento de Maior Evidência

Se existe um momento em que a suplementação de colágeno tem especialmente boa justificativa biológica e clínica, é o pós-parto imediato e o período de recuperação (primeiras 6–12 semanas). Nesse contexto, as restrições relativas ao primeiro trimestre deixam de existir — e a demanda fisiológica por síntese de colágeno é máxima.

Cicatrização de laceração perineal e episiotomia

Laceração perineal ocorre em 60–80% dos partos vaginais de primíparas em algum grau. Lacerações de terceiro e quarto grau, embora menos frequentes (1–4%), exigem sutura cirúrgica e têm tempo de cicatrização de semanas a meses.[9] A cicatrização de tecidos ricos em colágeno segue fases bem estabelecidas: inflamação, proliferação (síntese ativa de colágeno tipo III) e remodelamento (substituição por colágeno tipo I mais resistente). Cada fase depende de substrato proteico adequado.

A suplementação de colágeno hidrolisado no pós-parto, especialmente combinada com vitamina C, zinc e ferro (cujos estoques podem estar depletados após o parto), oferece suporte direto a esse processo. Estudos em cicatrização cirúrgica em não-gestantes demonstram que suplementação perioperatória de colágeno + vitamina C reduz tempo de cicatrização e melhora força tênsil da ferida.[14]

Recuperação da diástase abdominal

A diástase dos retos abdominais — separação da linha alba causada pela pressão uterina durante a gestação — afeta cerca de 100% das gestantes no terceiro trimestre em algum grau. Em 40% das mulheres, a diástase significativa persiste aos 6 meses pós-parto.[4] A recuperação depende da qualidade e quantidade do colágeno na linha alba. Exercícios de reabilitação de core são o tratamento primário, mas suplementação de colágeno pode oferecer suporte ao substrato estrutural necessário para o remodelamento da linha alba.

Amamentação e colágeno

Ao contrário de muitos peptídeos terapêuticos — onde a transferência para o leite materno é uma preocupação real — o colágeno hidrolisado, por ser degradado a aminoácidos antes e durante a absorção, não apresenta risco documentado de transferência de compostos bioativos intactos para o leite. Os aminoácidos que chegam ao leite são os mesmos presentes em qualquer dieta proteica adequada. Não há contraindicação conhecida ao uso de colágeno hidrolisado certificado durante a amamentação.[7]

Protocolo Pós-Parto com Colágeno

Iniciar suplementação de colágeno hidrolisado nas primeiras 48–72 horas após o parto (assim que tolerada gastrointestinalmente) com 15 g/dia + 500 mg de vitamina C. Manter por pelo menos 8–12 semanas, que corresponde ao período principal de remodelamento do tecido cicatricial. Combinar com ingestão proteica total adequada (mínimo 1,2 g/kg/dia no pós-parto, especialmente se amamentando) e ferro suplementar se pós-parto com hemorragia significativa.

O Mercado Brasileiro de Colágeno: Navegando as Opções

O mercado de colágeno hidrolisado no Brasil é vasto e desregulado de forma prática — a ANVISA categoriza como suplemento alimentar (sujeito à RDC 243/2018), mas a fiscalização de laudos de análise e rastreabilidade não é sistemática. Isso coloca o ônus da verificação de qualidade no consumidor.

O que verificar antes de comprar durante a gravidez

  • Laudo de metais pesados: Solicite ao fabricante ou exija que esteja disponível no site. Marcas sérias publicam laudos de terceiros. Ausência de laudo é sinal de alerta imediato.
  • Rastreabilidade da origem: "Colágeno bovino" sem especificar procedência (Brasil, Argentina, outros) é informação insuficiente. Prefira marcas que declaram origem geográfica dos animais.
  • Peso molecular dos peptídeos: Colágeno com peso molecular abaixo de 3.000 Da (Daltons) tem melhor absorção. Marcas de qualidade declaram essa informação. Produto que não informa peso molecular provavelmente não conhece o próprio produto.
  • Certificação de terceiros: Selos como Informed Sport, NSF Certified for Sport ou SBAC (Brasil) indicam que um laboratório independente verificou composição e ausência de contaminantes.
  • Registro ANVISA: Verifique se o produto tem registro ou notificação ativa no sistema CONSULTA de produtos da ANVISA. Produto sem registro não passou por nenhum processo de verificação regulatória.

Preço como indicador de qualidade

Colágeno hidrolisado de qualidade, com matéria-prima rastreável, processamento adequado e laudos de análise, tem custo de produção mínimo que se reflete no preço ao consumidor. Produtos significativamente mais baratos que a média de mercado para a mesma quantidade devem ser investigados — geralmente indicam matéria-prima de origem menos controlada ou adulteração com proteínas mais baratas. No contexto da gravidez, onde cada suplemento ingerido passa pela placenta em algum grau, economizar em colágeno sem verificar procedência é o pior custo-benefício possível.

Na gravidez, o critério de seleção de qualquer suplemento deve ser invertido: não escolher o mais barato que parece funcionar, mas o mais seguro que se enquadra no orçamento. Colágeno sem laudo de metais pesados não é opção durante a gestação.

Perguntas Frequentes: O Que as Gestantes Mais Perguntam

Posso tomar colágeno no primeiro trimestre?

Os dados formais são insuficientes para dar uma resposta definitiva. O mecanismo de ação (nutricional, não farmacológico) e a natureza dos aminoácidos fornecidos não levantam preocupações teratogênicas conhecidas. Muitas gestantes consomem grandes quantidades de colágeno alimentar (caldos, carnes com cartilagem) desde o primeiro trimestre sem evidência de malefício. No entanto, para suplementos industrializados, a recomendação padrão é discutir com o obstetra antes de iniciar no primeiro trimestre, especialmente em gestações de risco.

Colágeno ajuda a prevenir estrias na barriga?

Não existe estudo com tamanho amostral adequado respondendo a essa pergunta específica em gestantes. O que existe: evidência de que colágeno hidrolisado melhora elasticidade dérmica e densidade de colágeno cutâneo em adultos não gestantes; evidência de que fatores genéticos e velocidade de ganho de peso são os principais determinantes de estrias gravídicas; evidência insuficiente para cremes tópicos como prevenção. A hipótese de que suplementação oral de colágeno + vitamina C + hidratação adequada pode reduzir a gravidade de estrias é biologicamente plausível, mas não confirmada em gestantes. Não há risco em tentar, desde que a fonte seja certificada.

Qual a diferença entre colágeno e gelatina?

Gelatina é colágeno parcialmente hidrolisado obtido por desnaturação térmica. Tem perfil aminoacídico idêntico ao colágeno hidrolisado, mas moléculas maiores — o que reduz (mas não elimina) a biodisponibilidade. Gelatina sem sabor dissolvida em líquido quente é uma alternativa acessível ao colágeno hidrolisado premium. A dose necessária é um pouco maior para obter o mesmo efeito, e a textura pode ser menos palatável. Para fins de segurança na gravidez, a gelatina alimentar tem histórico de uso ainda mais extenso que o colágeno hidrolisado industrializado.

Posso tomar junto com ferro e ácido fólico?

Não há interação farmacológica conhecida entre colágeno hidrolisado e suplementos de ferro ou ácido fólico. O colágeno não quelata ferro significativamente. A recomendação prática é separar o colágeno do suplemento de ferro por pelo menos 2 horas — não por interação prejudicial documentada, mas porque o ferro absorve melhor em estômago vácio e o colágeno também tem absorção ligeiramente melhor longe de refeições ricas em fitatos. Ácido fólico pode ser tomado junto sem restrições.[14]

Colágeno engorda?

Colágeno hidrolisado tem aproximadamente 35–40 kcal por 10 g — a mesma caloria de qualquer proteína. Não tem propriedade de acumulação de gordura além do que qualquer proteína teria em excesso calórico. Na gravidez, o ganho de peso é esperado e necessário — o colágeno contribui com calorias proteicas dentro de um plano alimentar gestacional adequado, não representa risco de ganho de peso excessivo quando usado em doses usuais.

Colágeno em Condições Gestacionais Específicas

Algumas condições comuns durante a gravidez criam contextos nos quais o papel do colágeno merece consideração especial — seja como potencial benefício ou como área de cautela adicional.

Diabetes gestacional

O diabetes gestacional afeta 10–15% das gestantes no Brasil.[11] A hiperglicemia crônica promove glicação de proteínas do tecido conjuntivo — um processo que degrada fibras de colágeno, tornando-as rígidas e quebradiças. Gestantes com diabetes gestacional podem ter comprometimento da síntese e qualidade do colágeno em tecidos como placenta, períneo e pele, comparadas a gestantes normoglicêmicas.

A suplementação de colágeno hidrolisado nesse contexto não trata o diabetes gestacional, mas pode oferecer suporte ao pool de aminoácidos para síntese de colágeno novo — não afetado pela glicação. Não há dados específicos em gestantes diabéticas para essa indicação. Importante: o colágeno hidrolisado puro sem aditivos não eleva glicemia de forma significativa — mas produtos formulados com adição de açúcar ou maltodextrina devem ser evitados nessa população.

Gravidez múltipla (gêmeos, trigêmeos)

Gestações múltiplas impõem demanda estrutural muito maior sobre útero, ligamentos, assoalho pélvico e parede abdominal. O risco de diástase abdominal grave, prolasso e lesões perineais é proporcionalmente maior. Do ponto de vista teórico, a justificativa para suporte com colágeno hidrolisado é mais forte — mas os dados específicos para esse contexto também são ausentes. A recomendação se mantém: discutir com o obstetra da gestação de alto risco, com atenção à qualidade da fonte.

Histórico de lesões de tecido conjuntivo

Mulheres com histórico de lesões ligamentares recorrentes, hipermobilidade articular, ou diagnóstico de síndrome de Ehlers-Danlos hipermóvel (hEDS) têm síntese de colágeno geneticamente comprometida. Para essas gestantes, a suplementação de colágeno hidrolisado + vitamina C tem base mecanicista mais sólida como suporte ao tecido conjuntivo gestacional — embora os estudos específicos em grávidas com esses diagnósticos sejam escassos.[5]

Anemia ferropriva gestacional

Anemia gestacional afeta estimativa de 40% das gestantes em países em desenvolvimento e 20% no Brasil.[13] O ferro é cofator da prolil-hidroxilase — a enzima que catalisa a hidroxilação da prolina no colágeno em formação. Gestantes com anemia ferropriva severa têm síntese de colágeno comprometida, independentemente da ingestão de aminoácidos precursores. Nesse cenário, corrigir a anemia é prioritário; o colágeno suplementar não substitui essa correção, mas pode complementar uma vez que os estoques de ferro estejam sendo repostos.

Contextos de Maior Justificativa para Suplementação

Alta
Pós-parto imediato — cicatrização perineal e recuperação abdominal
Moderada
Dor articular gestacional por sobrepeso — suporte à cartilagem
Moderada
Hipermobilidade articular / hEDS — síntese de colágeno geneticamente comprometida
Baixa
Gestante sem queixas e com dieta proteica equilibrada — não há necessidade adicional clara

Síntese: Colágeno é Diferente — e Isso Importa

O colágeno hidrolisado ocupa uma posição única no espectro de suplementos discutidos no contexto da gravidez. Não é um peptídeo terapêutico com atividade farmacológica — é um alimento processado para maior biodisponibilidade, fornecendo aminoácidos que o organismo materno e fetal usam como substrato construtivo. Essa distinção tem implicações concretas para a avaliação de risco: o mecanismo de ação não levanta preocupações teratogênicas conhecidas, e o histórico de uso alimentar extenso em diversas culturas oferece uma camada de tranquilidade que a maioria dos suplementos gestacionais simplesmente não tem.

Os dados disponíveis, embora limitados em profundidade, apontam para segurança no terceiro trimestre com doses padrão. O risco real está na qualidade da matéria-prima — metais pesados em produtos sem certificação são a principal ameaça concreta — e na negligência dos cofatores essenciais para síntese eficaz de colágeno: vitamina C, ferro, zinco e cobre. Um produto de colágeno certificado, combinado com suporte nutricional completo, é muito diferente de colágeno barato sem procedência mais vitamina C ignorada.

Para gestantes que precisam de suporte estrutural adicional — seja para períneo sob tensão crescente, articulações sob sobrepeso gestacional, ou qualidade dérmica — o colágeno hidrolisado certificado é, entre as opções de suplementação proteica especializada, a que apresenta a melhor relação entre evidência disponível e perfil de risco. Isso não é aprovação incondicional: é reconhecimento de que, aqui, a conversa com o médico tem base mais concreta do que na maioria dos temas de suplementação gestacional. E que essa conversa vale a pena acontecer.

A distinção mais importante que este artigo buscou estabelecer é simples: colágeno hidrolisado é nutrição, não farmacologia. Peptídeos terapêuticos são farmacologia. Confundir as duas categorias — seja para superestimar os benefícios do colágeno ou para transferir a cautela legítima com peptídeos de pesquisa para o colágeno alimentar — não serve à gestante que precisa de informação clara. O colágeno merece ser avaliado pelo que é: uma proteína com perfil de aminoácidos específico, útil em contextos bem definidos, segura quando de boa origem, e sem a carga de preocupações que os compostos farmacologicamente ativos carregam durante a gravidez.

Há uma ironia no mercado atual: produtos de colágeno de baixa qualidade, sem laudo, com origem animal desconhecida, são vendidos livremente em farmácias e e-commerces brasileiros sem nenhuma advertência sobre o risco de contaminação por metais pesados durante a gravidez. Enquanto isso, gestantes que pedem orientação sobre colágeno recebem, frequentemente, a resposta padrão de "evite qualquer suplemento durante a gravidez" — uma generalização que trata o mesmo da mesma forma que semaglutida ou BPC-157. Nenhuma dessas abordagens serve bem à saúde materna. A informação específica, baseada em evidências e adequada ao risco real, é o que faz diferença.

Resumo de Segurança

Baixo
Risco teórico do colágeno hidrolisado em si (nutricional, não farmacológico)
Moderado
Risco de contaminantes se fonte não certificada
3º Tri
Trimestre com dados de RCT disponíveis
Essencial
Vitamina C como cofator insubstituível da síntese

Peptídeo de Pesquisa

BPC-157 5mg — Suporte à Regeneração Tecidual

Nota: BPC-157 é um peptídeo de pesquisa sem aprovação para uso humano e contraindicado durante a gravidez. Este produto é destinado a contextos de pesquisa e uso adulto não gestacional. Consulte seu médico antes de qualquer uso de peptídeos terapêuticos.

Interações Nutricionais: O Que Potencializa e O Que Interfere

O colágeno hidrolisado não existe em isolamento nutricional — sua eficácia depende de um ambiente bioquímico favorável e pode ser modulada por outros nutrientes e compostos presentes na dieta ou em suplementos co-prescritos durante o pré-natal.

O que potencializa a síntese de colágeno

  • Vitamina C (200–500 mg): O cofator mais importante. Aumenta a síntese de colágeno em 3–5x quando tomada junto com colágeno hidrolisado em estudos in vitro e in vivo. A dose de vitamina C do pré-natal padrão (geralmente 60–85 mg) é insuficiente para maximizar a síntese — uma suplementação adicional específica para este propósito é justificada.[3]
  • Silício biodisponível: Cofator menos conhecido da prolil-hidroxilase. Presente em cereais integrais, aveia e fontes vegetais. Não requer suplementação separada em dieta equilibrada, mas sua deficiência compromete qualidade do colágeno formado.[14]
  • Proteína total adequada: O pool de aminoácidos essenciais garante síntese proteica global, criando o contexto anabólico necessário para que glicina e prolina do colágeno sejam direcionadas à síntese de tecido conjuntivo, não à produção de energia.

O que pode interferir

  • Excesso de cafeína: Cafeína em doses elevadas interfere na síntese de prolil-hidroxilase em estudos celulares. O consumo moderado (até 200 mg/dia, como recomendado na gravidez) não tem impacto clinicamente relevante documentado.
  • Álcool: Contraindicado na gravidez por múltiplas razões — inclui inibição da síntese de colágeno via supressão da expressão gênica de colágeno tipos I e III.
  • Corticosteroides: Uso prolongado de corticosteroides sistêmicos (usados em algumas condições gestacionais) inibe a síntese de colágeno. Gestantes em uso de prednisona ou similar por períodos prolongados podem ter demanda aumentada por suporte nutritivo ao colágeno — mas a decisão de suplementar deve ser discutida com o especialista que prescreveu o corticoide.
  • Fitatos em excesso: Presentes em cereais não processados e leguminosas mal preparadas, os fitatos quelam zinco e cobre — cofatores da síntese de colágeno. Técnicas de preparo adequadas (demolhar leguminosas, fermentar cereais) reduzem significativamente esse efeito.

Checklist: Antes de Comprar Colágeno na Gravidez

Para consolidar as informações deste artigo em algo acionável, aqui está um checklist objetivo para gestantes que considerem suplementação de colágeno hidrolisado:

  • Discuti com meu obstetra ou nutricionista? Ponto de partida inegociável. Especialmente no primeiro trimestre ou em gestações de risco.
  • O produto tem laudo de metais pesados de laboratório acreditado? Se não tiver, não comprar. Sem exceção durante a gravidez.
  • A origem animal está declarada? Bovino/suíno/marinho + procedência geográfica ou rastreabilidade documentada.
  • Estou tomando vitamina C junto? Sem 200–500 mg de vitamina C, a síntese de colágeno é comprometida. Complemento indispensável.
  • Minha ingestão proteica total está adequada? Colágeno é suplemento proteico especializado, não substituto de proteína total. 1,1 g/kg/dia no mínimo.
  • Tenho deficiências de ferro, zinco ou cobre? Verificar com hemograma e marcadores nutricionais no pré-natal. Deficiências limitam a síntese independentemente do colágeno.
  • Estou no segundo ou terceiro trimestre? Onde existem dados de RCT. No primeiro trimestre, a decisão requer mais cautela e obrigatoriamente supervisão profissional.
  • O produto tem registro ou notificação ANVISA ativa? Verificar no sistema de consulta ANVISA antes de comprar.

Resumo Final em Uma Frase

Colágeno hidrolisado certificado, com cofatores adequados (vitamina C, zinco, ferro, cobre) e supervisão médica, é o suplemento peptídico com o melhor perfil de segurança gestacional disponível — categoricamente diferente de peptídeos terapêuticos de pesquisa, e com benefícios fisiológicos reais quando a indicação é correta e a fonte é rastreável.
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Sobre este conteúdo

Conteúdo elaborado com base em literatura científica peer-reviewed sobre colágeno hidrolisado, suplementação gestacional, bioquímica do tecido conjuntivo e farmacologia de peptídeos. Tem caráter exclusivamente educativo e informativo — não constitui prescrição médica, nutricional ou farmacêutica, e não substitui a orientação do obstetra, médico nutrólogo ou nutricionista responsável pelo pré-natal. As evidências citadas refletem o estado da ciência disponível e não devem ser interpretadas como aprovação regulatória de qualquer produto ou indicação terapêutica. Toda suplementação durante a gravidez deve ser avaliada individualmente por profissional de saúde habilitado.

Referências Científicas

  1. [1]Ricard-Blum S. The collagen family. Cold Spring Harb Perspect Biol. 2011;3(1):a004978. doi:10.1101/cshperspect.a004978.
  2. [2]Ness RB, Roberts JM. Heterogeneous causes constituting the single syndrome of preeclampsia: a hypothesis and its implications. Am J Obstet Gynecol. 1996;175(5):1365–1370.
  3. [3]Shaw G, Lee-Barthel A, Ross ML, Wang B, Baar K. Vitamin C-enriched gelatin supplementation before intermittent activity augments collagen synthesis. Am J Clin Nutr. 2017;105(1):136–143.
  4. [4]MacLennan AH, Taylor AW, Wilson DH, Wilson D. The prevalence of pelvic floor disorders and their relationship to gender, age, parity and mode of delivery. BJOG. 2000;107(12):1460–1470.
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  7. [7]Iwai K, Hasegawa T, Taguchi Y, et al. Identification of food-derived collagen peptides in human blood after oral ingestion of gelatin hydrolysates. J Agric Food Chem. 2005;53(16):6531–6536.
  8. [8]Zague V, de Freitas V, Rosa MC, de Castro GÁ, Jaeger RG, Machado-Santelli GM. Collagen hydrolysate intake increases skin collagen expression and suppresses matrix metalloproteinase 2 activity. J Med Food. 2011;14(6):618–624.
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